O dia que a terra parou

A pandemia Covid-19, o novo coronavírus, atirou milhares de pessoas para um confinamento obrigatório em suas casas.

A 19 de Março de 2020, vi-me privado de continuar a exercer funções na empresa para a qual eu trabalho. Privado de sair da minha residência, privado de circular livremente, privado de estar ou ficar com as pessoas às quais estava habituado.

O estado de emergência privou as nossas mais ínfimas liberdades, colocando-nos, a cada um de nós, a maior prova a superar por qualquer ser humano.

Coagido, incentivado, motivado a documentar a espuma dos dias, eu fui fotografando a rotina caseira. Com imagens relativamente fáceis de criar uma intimidade ou familiaridade a cada um de nós, outros do foro mais íntimo e pessoal.

Por Anton Tchékov: só abrimos bem os olhos quando somos infelizes. Nos 46 dias de confinamento, na esperança dos dias, eu combati a ânsia e a vontade de abraçar com as imagens que se aproximavam a todo o momento e instante. O pior, penso, não é estar fechado entre quatro paredes, mas sobre nós mesmos.

O isolamento pode e deve permitir à criação. A empatia pelos lugares, pelas pessoas da casa, por quem não esquecemos, nós procuramos imortalizar através das imagens. O medo e o desespero dos primeiros dias, deram lugar à apatia de viver dias após dias tão semelhantes ao anterior, como cruzamos a tempestade até à bonança de aceitar os dias com a doença.

Protegendo-nos, protegemos os outros. Oferecendo-nos o dever cívico de proteger a saúde de todos.

A maior memória, vivendo num mundo de memórias tão célere, devemos guardar por agora que o melhor da vida, como escreveu o autor, “a felicidade só é real quando compartilhada”.