Realidade e Ilusão

A obra de Rómulo Celdrán, nascido 1973 em Las Palmas, Gran Canária, reveste-se de tal forma de um carácter hiper-real, que na imprensa espanhola foi muitas vezes apresentado como fotógrafo. Mas a fotografia é precisamente uma das poucas disciplinas artísticas que Celdrán nunca explorou. O erro, ou o engano, advém dos trabalhos de Rómulo Celdrán, quer sejam pintura, desenho, litografia, escultura em madeira ou pedra, parecerem fotografias sem o serem em nenhum sentido. Defini-lo como um virtuoso artista hiper-realista é redutor. Rómulo Celdrán aceita e emprega uma linguagem pictórica que tem mais de quinhentos anos e cujos primeiros mestres foram os primitivos artistas flamengos. Esta linguagem pressupõe que a verdade reside na aparência, logo que a aparência ganha continuidade temporal e espacial quando abordada artisticamente. A temática em Celdrán é o comum, o quase nada interpretado como susceptível de valorização artística; garrafas vazias e embalagens várias, caixas e bidões, molas de roupa ou aparas de lápis, cenas de aterros, de logradouros, de arrecadações, ferro-velhos, aterros ou estaleiros de obras… estes modelos manifestam tanto uma singular percepção selectiva, como um modo de compreender o próprio processo de trabalho. Perante este artista, do ponto de vista técnico e estético, não é relevante que o objecto representado seja trivial, uma vez que o mérito artístico é o mesmo, fosse ele sublime. A linguagem de Rómulo Celdrán expressa a aparência sensível do quotidiano, sempre circunscrito a uma materialidade estética. Esta materialidade é alcançada pela tangibilidade ilusória que imprime aos seus trabalhos. Mas, e apesar de todo o seu realismo, a mestria de Celdrán encontra-se mais no velado do que no representado. O que cria é algo de extraordinário, de literalmente genial. Existe algo em potência construído com uma paciência inacreditável que, na sua banalidade ou absoluto abandono, surge como jóia. Se, por um lado, a obra deste artista é pura superfície, de facto possui uma misteriosa interioridade sublimada pela inteligente ironia empregue no processo conceptual. Rómulo Celdrán é um artista de características singulares. Ser um jovem, autodidacta, que alcançou o domínio técnico na representação naturalista em todos os suportes a que se dedicou, confere-lhe um perfil fora do normal. A sua qualificação advém do próprio esforço, unido a capacidades inatas, que lhe proporciona e nutre um contexto formal e conceptual no mínimo extravagante para a arte contemporânea. Rómulo Celdrán trabalha disciplinadamente, mas nas suas peças, reflecte-se mais a intensidade passional do que a vemência física, factor que também possuem. Parecem ser consequência de um credo emocional que funciona como catalizador da linguagem: os efeitos ilusionistas dos recursos técnicos são, por princípio, empregues com a maior consequência e radicalidade. Na última série de trabalhos, Pieces, o artista desenha a lápis branco sobre madeira negra, concentrando-se quase em exclusivo no objecto, que às mãos deste génio ilusionista, passa com que por magia de algo banal a obra assombrosa. Exposição patente de 15 de Maio até 14 de Junho na livraria Ler Devagar