Paulo Neves

Paulo Neves, nascido em 1959, segue com rigor, desde o início da sua carreira artística, um estilo pessoal e inconfundível e percorre um caminho que está enraízado na tradição antiga de escultores. Os seus materiais preferidos foram até hoje a madeira e a pedra e ele encontra a sua inspiração sobretudo no fundo dos seus valores. Os primeiros trabalhos notáveis datam do ano 90 e têm o título “Nascimento” e “Morte”. Esculturas escuras, presas à terra, como berços de madeira, guardam no seu interior sinais de nova vida. A morte revela-se nestas obras como um doce abraço e um ventre fértil e seguro. As criaturas estilizadas e embrionais prometem esperança e estão simultaneamente presas ao destino fatal da mortalidade. Estes trabalhos dos primeiros anos impressionam, porque o jovem artista criou obras que reuniram forma, matéria e conteúdo numa matura espiritualidade. A partir de meados dos anos 80, caras silenciosas surgem regularmente no trabalho de Paulo Neves e revelam-se em variáveis formas; como papoilas oscilantes, como homenagem nos Trilhos, douradas e majestosas nos Anjos, coloridas e múltiplas no Paínel ou como reflectoras nos espelhos da série Impressões. Sobretudo, os seus numerosos trabalhos públicos estão marcados e tornam-se inconfundíveis pelas suas caras estilizadas e andróginas. Muitas vezes em ligação com uma postura aprumada e impressionante, as esculturas do Paulo Neves provocam no observador uma sensação específica, que está ancorada na nossa cultura cristã. As caras causam uma certa humanização, que pode provocar a sensação de Encontro e que com a aura positiva e serena destas obras, levam o observador a projectar inconscientemente nelas o significado de guarda ou até de protector. Por outro lado, a presença imponente destas caras pode provocar que o trabalho escultórico fique velado e perca peso. Um outro elemento importante no trabalho de Paulo Neves é a espiral. Na obra do artista a espiral não parece ser apenas um símbolo místico, do qual o magnetismo mágico e universal é indiscutível, mas esta forma de gestos repetitivos nas suas obras conduz claramente à reflexão e à meditação. Com convicção, as suas espirais marcam pedras, madeiras, papéis e paredes ou sobem em colunas altas e torcidas. Neste gesto, o artista põe muito rigor e cuidado, um ritmo constante e doce, similar ao pulsar do coração ou às vagas suaves do mar. No ano 2005 Paulo Neves partiu do gesto circular da espiral e criou as novas séries de “Rodas” e “Ninhos”. Nestas esculturas a forma, a estrutura e a matéria ganharam importância e a interpretação espiritual ficou em plano de fundo. Para a série mais recente “Ocos” Paulo Neves procurou uma confrontação nova com a matéria prima e trabalhou-a com muito respeito e cuidado. A madeira dos troncos de castanheiros envelhecidos e ocos está em contraste vivo com o trabalho formal do corte, ritmo e coloração e unem-se com mestria em obras tensas e igualmente harmónicas. Estes trabalhos são pura forma, bastam-se a si mesmas e não precisam de nenhum conteúdo. A inconfundível mão da natureza e a intervenção inteligente e sensível do artista tornam estas esculturas em mais uma referência na obra do Paulo Neves. Junto com a série “Ocos” o artista criou uma série de painéis de parede. Nestas obras ele sublinha a característica específica do contraplacado marítimo. Com a junção do elemento fundamental na arquitectura, do ângulo de 90º, ele obriga com um gesto simples o painel bidimensional a voltar a ser escultura. O elemento L abre um amplo espaço escultural que permite a intervenção lúdica do artista e do coleccionador num segundo plano. Durante o seu percurso, Paulo Neves seguiu um progresso artístico prudente mas constante e certificou-se bem dos fundamentos do seu trabalho antes de construir sobre eles. O artista criou assim uma “escrita” inconfundível, que o permite defender o seu lugar no contexto da arte contemporânea, pelo facto de trabalhar e desenvolver uma forma híbrida de expressão artística, que une percepção global a cultura local e pessoal. Exposição patente de 15 de Maio até 28 de Junho na livraria Ler Devagar