A Cabeça é como a Casa

Inauguração da exposição “A Cabeça é como a casa” ?Às vezes, toda a tristeza/ cabe no pó/ que me invadiu/ a casa?, escreveu António Mega Ferreira. E é nessa última pausa, nessa subtil mudança para o verso derradeiro, nessa passagem que permitiria uma outra leitura, que se inscreve o ambiente da fotografia de Mafalda Capela (1977). ?Às vezes, toda a tristeza cabe no pó que me invadiu?, parece querer dizer-nos cada imagem. E onde se lê tristeza, poderia ler-se melancolia, memória, ou não se tratasse de uma espécie de espelho velado onde nada se declara, tudo se sugere. Ou seja, ?a casa? aparece neste poema, como nesta exposição, enquanto símbolo de uma outra dimensão, visivelmente mais densa, mais metafórica, do que o objecto fotografado, num rigoroso jogo de contenção e de harmonia com a natureza encenada, sem que contudo se perca a criação inicial, o ponto de partida: as maquetes do arquitecto Miguel Cabral. A cabeça é como a casa, sim, como a casa que se limpa quando a memória instala o caos. Aqui, podemos olhar para fora e para dentro da casa como se olhássemos para fora e para dentro da cabeça, e estamos realmente gratos por esta experiência. A fotografia de Mafalda Capela é como um lugar que se desprende e que de alguma forma rebenta com a nossa solidão. Exposição patente de 29 de Maio até 21 de Junho na livraria Ler Devagar